Fumê

[Foto: Messias Brandão]

Messias Brandão

FUMÊ
(Rita Costa & André L. Soares)
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[Ele] – Há um ano, uma vez por semana – toda quarta-feira –, entro no mesmo mercado. Compro sempre as mesmas coisas. Aproveito para observar a moça do caixa enquanto passa minhas compras. Sei que se chama Maria Pinheiro. Li no crachá. Nunca trago caneta. Peço que me empreste a dela. É quando, às vezes, nossas mãos se tocam, deixando-me trêmulo e feliz. Quando os olhares se cruzam, agradeço em voz baixa. Nem sei se me escuta. Excessivamente tímido, não tenho coragem de convidá-la para sair. Pego as compras – que o rapaz empacotou – e saio sem olhar para trás.

[Ela] – Há um ano, basta vê-lo na fila e tenho o coração na boca. Vem uma vez por semana – toda quarta-feira. Conheço de cor cada produto que leva. A primeira vez que o vi, acabara de ser promovida à caixa. Estava nervosa. Paciente, foi gentil comigo. Compreendeu minha lentidão devido a pouca experiência. Outros clientes reclamavam. Ele não. Sempre que me pede emprestada a caneta suo frio. Sei que se chama José Carvalho. Vejo no cheque. Sei telefone e endereço. Sempre escreve no verso. Por vezes pensei em ligar. Mas sou tímida. Desisto. Não creio que tenha percebido minha felicidade ao vê-lo. Ele nem imagina o efeito que causa quando nossos olhos se cruzam. Até esqueço o trabalho, vendo-o sair sem olhar para trás.

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Magazine Luíza

Esquecidos

[Foto: Jorge Marazzo]

Meninos de rua - Jorge Marazzo

ESQUECIDOS
(Rita Costa)
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Enoja-me tanto contraste,
triste realidade sem solução
sem data de validade,

onde só vejo o belo e pequeno,
quando perto do feio.

Só se escutam promessas…
frases feitas… não-verdades,
e os anos passam nas calçadas…
passamos por eles e elas,…
pessoas ignoradas.

Ainda assim fazem questão
de nos cuspir na cara,
a dignidade humana que sentem,
mas que socialmente lhes é roubada.

Banquete em lata de lixo,
não vejo futuro a essas vidas,
se nelas a miséria vem menina
e a sopa distribuída nas esquinas,
enche o prato-fundo de ilusão
na indiferença infinda.
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