Fumê

[Foto: Messias Brandão]

Messias Brandão

FUMÊ
(Rita Costa & André L. Soares)
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[Ele] – Há um ano, uma vez por semana – toda quarta-feira –, entro no mesmo mercado. Compro sempre as mesmas coisas. Aproveito para observar a moça do caixa enquanto passa minhas compras. Sei que se chama Maria Pinheiro. Li no crachá. Nunca trago caneta. Peço que me empreste a dela. É quando, às vezes, nossas mãos se tocam, deixando-me trêmulo e feliz. Quando os olhares se cruzam, agradeço em voz baixa. Nem sei se me escuta. Excessivamente tímido, não tenho coragem de convidá-la para sair. Pego as compras – que o rapaz empacotou – e saio sem olhar para trás.

[Ela] – Há um ano, basta vê-lo na fila e tenho o coração na boca. Vem uma vez por semana – toda quarta-feira. Conheço de cor cada produto que leva. A primeira vez que o vi, acabara de ser promovida à caixa. Estava nervosa. Paciente, foi gentil comigo. Compreendeu minha lentidão devido a pouca experiência. Outros clientes reclamavam. Ele não. Sempre que me pede emprestada a caneta suo frio. Sei que se chama José Carvalho. Vejo no cheque. Sei telefone e endereço. Sempre escreve no verso. Por vezes pensei em ligar. Mas sou tímida. Desisto. Não creio que tenha percebido minha felicidade ao vê-lo. Ele nem imagina o efeito que causa quando nossos olhos se cruzam. Até esqueço o trabalho, vendo-o sair sem olhar para trás.

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O Amolador de Facas

[Patchwork - Berna Pontes]o-amolador-de-facas-berna-pontes2

O AMOLADOR DE FACAS
(Rita Costa & André L. Soares)
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José esteve longe de ser homem comum. Porém, algumas características que observei quando criança, as quais muito o diferenciavam das pessoas que tramitavam na pobre São Gonçalo da década de 80, somente consegui analisá-las melhor após adulta. Lembro-me que andava sempre vestido de preto e com barba feita, o que conferia jovialidade àquele homem de aproximados cinqüenta e cinco anos. Embora trabalhasse sob o sol, sobre uma bicicleta, amolando facas, alicates, tesouras e afins, mostrava-se bem disposto e educado com todos. Ele aparecia quase todas as semanas. De antemão, fazia saber sua presença em face dos gritos matutinos – que acordavam as casas, quebrando a comum monotonia –, ou pelo som dos utensílios sendo afiados e, ainda que não fosse de muito sorriso, tornava as ruas uma festa.

José não morava em São Gonçalo. Pouco se conhecia sobre ele. Geralmente, encostava a bicicleta – espetáculo à parte – à sombra de alguma árvore, enquanto trabalhava. Nós, crianças, sentávamos ao seu redor, extasiadas não apenas com as faíscas do esmeril, mas, principalmente, com a ‘sinfonia’, que José parecia reger tal um maestro, de mãos finas e gestos precisos. Não foi por acaso que o batizaram de ‘Paganini’, numa alusão ao imortal violinista italiano. Infelizmente, a alcunha parece ter criado vida e, tal acontecera com o músico de Gênova, esse amolador de facas também se tornaria vítima do mito, pagando caro por isso.

São Gonçalo era bairro simples. Formado por trabalhadores humildes. Gente boa, dotada de fé religiosa e costumes interioranos. Entre os moradores, havia uma mulher, de nome Eulália, com quase setenta anos, ranzinza, que não varria o lixo da casa em direção à calçada, não pendurava a roupa no varal pelo lado avesso, odiava gatos pretos, não passava embaixo de escadas. Não perdia missa. Sempre de terço na mão, dizia ela que todas essas coisas eram ‘atraso de vida’. Supersticiosa, cismou com o amolador. Bastava ele entrar no bairro, ela dizia que estava para morrer alguém, pois o som produzido pela pedra de amolar era de ‘mau agouro’.

Por ser bairro antigo, havia ali muitos moradores de idade avançada. Com isso era compreensível que, em freqüência acima do normal, uns e outros ‘batessem as botas’, o que, por influência de Eulália, logo associavam à presença do amolador. A princípio isso soava como brincadeira. Principalmente entre a garotada, que só queria diversão. Mas, com o passar do tempo, pela repetição constante das palavras maldosas de Eulália, mais e mais pessoas foram associando as mortes à presença do amolador.

O mito ganhou vulto. Pessoas ficaram arredias ao ouvir o esmeril. Logo a freguesia diminuiu consideravelmente. Teve quem tentasse proibir a entrada dele no bairro. O burburinho não demorou a chegar aos ouvidos do amolador, pois a frase se tornara refrão das ruas: ‘– Lá vem Paganini! Hoje morre um!’. Em seu viver simplório, ignoravam laudo médico, perícia, estado de saúde ou idade. Cultos e novenas foram organizadas. Casas foram benzidas. Não tardou surgirem ‘causos’ sobre o tal homem. Todo e qualquer falecimento passou a ter um só diagnóstico popular.

Encabulado, José não vinha com a mesma freqüência de antes. Alternava horários, tentando fugir à perseguição dos mais radicais. Numa tarde de agosto, após um mês sem dar as caras, ‘Paganini’ apareceu. Como de costume, foi rodeado pela molecada que, não tardou, fora chamada pelos pais. Pensei ser hora de almoço ou porque muitos – como eu – estavam vindo da escola. Fui das poucas crianças a poder ficar ali… encantada com aquela ‘musica’, até ser bruscamente interrompida por gritos saídos da rua, às minhas costas.

Virei em tempo de ver Antônio, marido de Eulália, faca na mão, proferindo ameaças ao homem que, com medo, nem assimilava o absurdo. Junto a Antônio, outros furiosos reforçavam o coro. Exigiam que se retirasse do bairro prometendo não voltar. Por mais que explicasse que não havia relação entre ele e as mortes, todos pareciam surdos e mal o deixavam falar. Não havia quem o socorresse. Na confusão, derrubaram a bicicleta, quebrando-a com chutes, bem como ao esmeril. As ferramentas foram espalhadas. Quando a PM chegou, difícil foi conter o povo. Os policiais sequer entendiam o que se passava. Levaram-no dali, pois já se falava em linchamento.

José nunca mais apareceu. Não sei o que foi feito dele. Dizem, alguns, que faleceu. Desde aquele dia muito tempo se passou. O bairro evoluiu. É outra mentalidade que predomina. Muitos desconhecem o caso. Ainda morre muita gente. Mas essa nunca foi a referência a me fazer lembrar do amolador. Penso nele quando ouço alguém dizer: ‘– Não varra o lixo pra calçada!’, ou se minha filha afina o violão. Há poucos dias, passando em frente à loja de discos, ouvi uns acordes suaves e agudos que elevaram meu espírito. Entrei. Quis saber quem era. Muito gentil, a moça do balcão disse: ‘– Essa é a sonata ‘Amorosa de Scena’, de Nicolo Paganini’. Saí às pressas. Não levei o disco. Não falei nada, nem poderia. Sem entender a razão, eu estava com os olhos cheios d’água.
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Esquecidos

[Foto: Jorge Marazzo]

Meninos de rua - Jorge Marazzo

ESQUECIDOS
(Rita Costa)
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Enoja-me tanto contraste,
triste realidade sem solução
sem data de validade,

onde só vejo o belo e pequeno,
quando perto do feio.

Só se escutam promessas…
frases feitas… não-verdades,
e os anos passam nas calçadas…
passamos por eles e elas,…
pessoas ignoradas.

Ainda assim fazem questão
de nos cuspir na cara,
a dignidade humana que sentem,
mas que socialmente lhes é roubada.

Banquete em lata de lixo,
não vejo futuro a essas vidas,
se nelas a miséria vem menina
e a sopa distribuída nas esquinas,
enche o prato-fundo de ilusão
na indiferença infinda.
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Cena Rio

[Ipanema – Phill4]

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CENA RIO
(Rita Costa & André L. Soares)
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Vi inícios de canções
de luz e Melodia
ao Tom de Ipanema…
cor ali nas graciosas
esquinas rumo ao sol.
Samba, bossa nova,
em dias de verão,
o Rio é sempre bom.
Maravilhosa cidade,
aquarela de temas
a tingir de nostalgia
as pedras do arpoador.

Ao final da tarde
Chico encanta o mar
– paisagem, vida e som –,
veja que flor bela,
tal Leila Diniz…
vozes de Copacabana,
– em letras de Assis –,
lapela e Cartola,…
buquês de Noel Rosa,
nas cores da poesia
de Drummond.
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Copacabana, Pura Poesia

[Foto: Rita Costa].

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COPACABANA, PURA POESIA
(Rita Costa)

E lá vem ele exuberante,…
mais um dia de sol quente,
nem precisa ser verão.
Chegam de todos os lados,
moradores ou não,
rede cheia, corpos morenos.
De um lado para o outro,
isopor na mão,
cadeiras coloridas.
Na areia, meninas:
a recatada e a perdida,
ninguém sabe,
ninguém liga,
nem importa se é ou não!
O joguinho de cartas,
o papo descontraído,
cerveja gelada,
nunca é dia perdido.
Entre os prédios a benção divina;
de braços abertos ele ilumina,
diversidade de cores e de sabores,
flertes, olhares,… amores.
Na beira, a observar
contornos a caminhar,
sobe a fumaça pelo ar.
Crianças correm para a espuma,
mães neuróticas a gritar,
o dia rola,…
termina.
Ai que dia!
Copacabana, pura poesia.
– Aí valeu! E amanhã, você vai vir?
– Claro que sim!
– Volto para curtir,…
onde o mundo vem se divertir.
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Mulher Carioca

[Foto: Paula Maíra]

MULHER CARIOCA
(André L. Soares)
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Soltou cabelos ao vento, em Copacabana,…
vestida de verão, nas cores de Ipanema;
sorveu raios de sol, pela pele morena,…
brilhando no calçadão, por toda semana.

Faiscando juventude, olhos soltando chamas,
pernas lindas, coxas grossas, na saia pequena,…
a voz suave da ainda menina, quase ingênua,
entoava belos sonhos de glamour e fama.

Quem sabe algum poeta lhe cantasse a beleza;
pensando nisso, olha pro Redentor e reza,
ajusta a roupa e o passo, acerta o rebolado.

Sensual, displicente, parece até que é sábado!
Com um sorriso que afirma que a vida é bela,
vai deslumbrando a todos que passam por ela.
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Predestinado

[Foto: Kaj Bujurman]

PREDESTINADO
(André L. Soares)
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Deus é brasileiro,
nordestino-carioca
e pede esmola,…
ele mora na favela
e ri de mim
todos os dias no sinal.
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Aos domingos
Deus sente preguiça
de ir à missa
e vai à praia
pegar onda, jogar bola;…
na semana mata aula,
porque Deus já sabe tudo,…
tudo tim-tim-por-tim-tim!
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Deus é brasileiro
cheio de boa vontade,…
mas também sonha toda tarde
com o Céu.
De segunda à sexta
pega o trem,
vai de pingente,
reza em silêncio
e diz ‘amém’ pra não cair.
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Deus trabalha na oficina,
apertando parafuso,
onde não pode criar
seus universos.
À noite a ‘milícia’ o coloca
contra o muro,
acusando-o de matar uma menina,…
com medo, confuso, perdido,
inibido, torturado,
sem um santo que o proteja
e abandonado pelo pai,…
caem por terra os sonhos
de João de Deus,
que, mesmo sem ter culpa,
vai conhecer o inferno
após ser traído
no banco dos réus.
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